Ebulição Virtual Nº20
 
Assuntos em pauta na
conjuntura educacional
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Terminologia porque usar. Por que não usar?

Ivan Kasahara, jornalista formado pela PUC/RJ, capacitado pela Escola de Gente – Comunicação em Inclusão como Oficineiro da Inclusão. Trabalhou como estagiário da organização de 2001 a 2004, tendo acompanhado Claudia Werneck na realização de Oficinas Inclusivas pelo Brasil

Terminologia, nomenclatura. Termos técnicos corretos que devem ser seguidos por todos que escrevem ou falam sobre um determinado assunto de uma área específica. No espaço acadêmico, nas esferas econômica, política e científica os respectivos jargões são respeitados.

Respeitados por seus membros e pelos profissionais da mídia que trabalham nos meios. Em áreas nobres e importantes do conhecimento e da atuação humana, jornalistas não se arriscam a criar novas formas de expressão para idéias e conceitos que não dominam plenamente, muito menos a escrever uma matéria sem uma rigorosa apuração.

No entanto, tanto cuidado não se repete com matérias sobre temas cotidianos, principalmente na área social, que, num país como o nosso, perpassa quase todas as editorias. Esquecem-se eles que, diferentemente de campos mais herméticos como o científico, não existem "termos" no jornalismo. O que há são palavras e a mídia, mais do que ninguém, deveria saber o poder nelas contido.

Palavras erradas transmitem conceitos errados. A passividade e a falta de ação da mídia com relação ao contínuo uso de nomes que há muito tempo se tornaram defasados é um dos principais motivos para a perpetuação de preconceitos e idéias deturpadas.

"Portador de deficiência", "menor abandonado", "aidético" e outras palavras carregadas de sentido pejorativo precisam ser urgentemente eliminadas das redações. Se não por convicção ideológica, ao menos pelo compromisso profissional de sempre informar corretamente e não transmitir valores deturpados.

Qual o significado de "menor abandonado"? Muitos dos "menores abandonados" citados em matérias não são menores, ou não possuem certidão de forma que se saiba a idade, ou não foram abandonados, estão na rua por escolha própria. Por que continuar com essa desinformação? Não são poucos os que já perceberam a curiosa diferenciação entre crianças ricas, chamadas, logicamente, de "crianças", e crianças pobres, denominadas, preconceitualmente, de "menores".

A evolução na terminologia significa uma evolução no pensamento. Perceber o desgaste obtido ao longo dos anos por algumas palavras que contêm preconceitos embutidos é um dever profissional do jornalista. Àqueles que afirmam ser inútil mudar a nomenclatura sem mudar a realidade e as políticas públicas, falta-lhes perceber a unidade das transformações sociais.

Não existem diversos movimentos, mas um único processo, com várias frentes que acontecem simultaneamente e que catalisam umas às outras. Utilizar sempre as palavras certas cria parâmetros sociais, desenvolve laços entre a mídia, os retratados por ela e os consumidores de informação.

É importante lembrar que estes novos termos "socialmente responsáveis" que reclamam espaço na mídia não surgem aleatoriamente. São fruto de reflexões de movimentos da sociedade, compostos exatamente pelas vítimas dos conceitos antiquados, e de consensos de grupos em situação de minoria.

Alguns deles, é verdade, ainda sofrem da "síndrome do politicamente correto", como "portador de deficiência", termo já ultrapassado utilizado somente em nosso país, mas há de se reconhecer que, na maior parte dos casos, as pessoas que definiram essas terminologias possuem mais discernimento e conhecimento sobre os assuntos do que jornalistas.

Menosprezar os efeitos positivos de uma mudança na atitude da mídia em relação às terminologias é desconhecer a própria estrutura da mídia. Através das palavras, e somente através delas, seu poder de influência e penetração, aliado à credibilidade conquistada, é exercido. Modificar a linguagem não é um paliativo, um eufemismo. É um elemento indispensável para a conscientização e a ação concreta de todos na construção de uma sociedade mais justa.

Jornalistas não podem se acomodar com o senso comum estabelecido e permanecerem inertes. Não lhes cabe apenas reproduzir o pensamento da maioria, satisfazendo-se em simplesmente documentar a história. Jornalistas são, como qualquer um, cidadãos responsáveis pela evolução da humanidade, agentes históricos ativos e privilegiados pela posição que ocupam, o que gera uma responsabilidade imensamente maior. Não rever as palavras usadas é evitar confrontar a si mesmo, ou por vaidade ou por medo de perceber que, talvez, suas noções de humanidade não sejam tão humanas assim.