Ebulição Virtual Nº20
 
Assuntos em pauta na
conjuntura educacional
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“Os maiores especialistas nos alunos são os pais”

Fábio Adiron, membro da comissão executiva do Fórum Permanente de Educação Inclusiva de São Paulo

 

Como começa seu envolvimento e ativismo no o tema da educação e deficiência?
Começa há sete anos, quando tive meu primeiro filho e ele nasceu com Síndrome de Down. Comecei a procurar grupos e descobri que, em São Paulo, na época, praticamente não existia nenhum grupo com foco inclusivo. Bati na porta de várias escolas para ver como funcionava. Coisa de pai que levou um grande susto. Fui também em instituições especiais, olhei bem para aquilo e vi que não era o que buscava. Me uni então a algumas pessoas e formamos a associação "Mais Um". Começamos a olhar a questão de educação e percebemos que o problema não era a Síndrome de Down, que o buraco era muito mais embaixo. A questão de inclusão era muito mais complicada.... Fui pouco a pouco me envolvendo na questão de inclusão na escola, da creche à Universidade. Acabei conhecendo outros grupos também excluídos, a maioria deles ligada à questão da deficiência. Inclusão era para todos - ou então não é para ninguém...

O seu filho está hoje matriculado numa escola privada. De maneira geral, as escolas privadas diferem muito da rede pública em relação à educação inclusiva?
Meu filho está matriculado numa escola privada, simplesmente porque fica na frente da minha casa e fiz essa opção. Mas estou muito envolvido com a questão da escola pública porque participo do Fórum de Educação Inclusiva e seus participantes estão predominantemente envolvidos em redes municipais de ensino do Estado de São Paulo. A percepção que tenho é que eles estão caminhando mais rápido que a escola privada. Seja por uma questão legal, seja por uma questão política - pois é muito mais difícil uma escola pública recusar um aluno -, ou pelo fato de que a escola particular tem hoje muitos valores competitivos e isso acaba deixando-a mais preconceituosa. Não estou dizendo que a escola pública está ótima em relação à inclusão, até porque só estará ótima quando não precisarmos mais falar nela! Mas estão mais adiantados.

 

Em que aspecto? 
Qual o principal problema hoje? O principal problema é uma questão de atitude, é perceber que todas as pessoas, com ou sem deficiência, são indivíduos. E olhar para um grupo de alunos como indivíduos e não simplesmente como uma massa. Não que na escola pública não tenha havido resistência - teve e ainda tem muita resistência, usando frases absurdas como "não sou pago para isso". Mas na escola pública os profissionais estão há mais tempo falando nisso e percebendo que existem diferenças e que precisam lidar com a diferença. Meu filho tem Síndrome de Down, mas tem outro menino que não aprende matemática, que por sua vez é muito diferente do outro que aprende matemática com facilidade. Quando eu falo que a escola pública caminha mais rápido, é por uma questão de atitude. Percebi que nesse processo ocorrem descobertas. "Poxa, essa criança também aprende". Cada um no seu ritmo, mas aprende.

Qual a importância da participação dos pais na busca da educação inclusiva?
Eu diria que os pais, de maneira geral, precisam rever seus valores. Encontramos pais de crianças com deficiência dizendo que os filhos devem ser incluídos. E esses mesmos pais têm uma postura totalmente diferente com os outros filhos, que não têm deficiência: os incentivam a serem competitivos, estudar para passar no vestibular etc. Portanto os pais precisam fazer uma revisão de como olham para o mundo e o que eu esperam de seus filhos no mundo.
Outro aspecto importante é que os pais estão cada vez menos comprometidos com a educação dos filhos - formal e informalmente. Então eles terceirizam a educação dos filhos. Os que têm dinheiro numa combinação babá - escola e os que não têm dinheiro terceirizam no sentido de que deixam tudo para a escola.
Os pais não precisam ser especialistas em educação, mas precisam saber o que as pessoas estão colocando na cabeça do filho dele.

 

Acha que os professores estão preparados?
A história da preparação do professor é um ponto importante. Só de "síndromes", existem mais de oito mil, então pergunto: qual professor estará preparado para saber tudo sobre todas elas? Nem os médicos sabem. O maior especialista na síndrome ou na deficiência dos filhos são os próprios pais. Então tem que ser fortalecido o contato entre os pais e a escola.
Não tem como o professor ser especialista em todas as deficiências e então qual vai ser o ponto de referência deles? Os pais, porque os pais sim são especialistas. A proximidade com o professor é fundamental.

 

Você disse que tem atuado da creche às universidades. Onde percebe que a situação está mais delicada?
Hoje as pessoas ficam muito preocupadas com ensino fundamental ou educação básica como um todo. O que acontece é que hoje nós temos uma massa de gente de mais de 20 anos que não está alfabetizada - porque há 20 anos não existia essa idéia de inclusão. As pessoas até iam para escolas especiais, que na verdade não ensinavam. Então é fundamental dar especial atenção para as turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), onde esses alunos acabam se matriculando.