A comunidade e a família na educação inclusiva
Equipe Mais Diferenças – Educação e Inclusão Social
Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo...
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou...
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Fernando Pessoa
A Constituição Brasileira de 1988 assegura a igualdade de condições para o acesso e a permanência de TODOS na escola, sem qualquer discriminação: Artigo 208, IV - § 1° - O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público e subjetivo. V – Acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um.
Os governos, os profissionais da educação e a sociedade civil têm se debruçado em questões que são importantes para garantir uma educação de qualidade para todos. Já sabemos que somente a garantia de acesso para populações historicamente excluídas, como as pessoas com deficiência, os povos indígenas, as mulheres, os negros não dão conta deste desafio e desta dívida histórica. Também já sabemos que experiências bem sucedidas de uma escola ou professor, por mais que exemplifiquem que é possível um trabalho inclusivo de qualidade, não garantem um sistema de ensino inclusivo.
Se historicamente são conhecidas as práticas que levaram, inclusive, à extinção e à exclusão social de seres humanos considerados não produtivos, é urgente que tais práticas sejam definitivamente banidas da sociedade humana. E bani-las não significa apenas não praticá-las. Exige a adoção de práticas fundamentadas nos princípios de dignidade e dos direitos humanos(...)
A dignidade humana não permite que se faça este tipo de discriminação. Ao contrário, exige que os direitos de igualdade de oportunidades sejam respeitados. (Brasil, Parecer 17/2001, p. 10)
O processo de inclusão educacional necessita da implementação de políticas públicas bem como de recursos técnicos, políticos e financeiros que viabilizem que estas políticas efetivem-se transversalmente, alcançando a todos e considerando a singularidade e as demandas específicas de cada grupo e/ou indivíduo. É preciso, também, que pensemos na estrutura e na organização dos sistemas regulares de ensino, na formação dos profissionais, na interface com os serviços de apoio especializados, na acessibilidade, nos processos de gestão e nas instâncias de decisão no interior da escola.
Podemos elencar uma série de outras variáveis importantes e necessárias em relação à inclusão, mas precisamos radicalizar as nossas relações com a comunidade e com as famílias, principalmente as relações de poder e de saber. Defendemos o paradigma da inclusão, porém muitas vezes continuamos falando, ditando, defendendo o que é bom para elas e não com elas. Continuamos a falar da desresponsabilidade das famílias, da desestrutura, de como são irresponsáveis com a educação de seus filhos, de como nós educadores temos que assumir cada vez mais responsabilidades, de como não fomos formados para trabalhar com alunos diferentes. Agora também está na hora de refletirmos e avaliarmos quê espaço de autoria e troca real estamos construindo com estas famílias. Falamos que na inclusão a diferença e a diversidade são valores que precisamos romper com os padrões, com as marcas identitárias, com a homogeneização... Estamos fazendo um esforço com nossos alunos e nossas práticas para vivermos e aprendermos esta nova realidade. E a nossa relação com as famílias?
“Pensar nessas questões exige de nós a coragem de rever o papel da escola frente à possibilidade de colaborar para a superação de modelos e fórmulas predefinidas que não dão conta da singularidade de cada comunidade e ainda contribuem para alienar, para distanciar a escola da realidade.” (Dante e Tiné)
Observamos que, com relação às famílias, de uma forma geral, embora exista a preocupação de envolvê-las no processo educacional de seus filhos, a visão predominante e a maneira de aproximá-las ainda é pela dificuldade. Essas dificuldades, na maioria das vezes, estão pautadas na forma como a instituição escola tem olhado para os seus alunos, a partir de processos de generalizações e padronizações, nos quais os alunos e suas famílias devem se encaixar em determinados parâmetros. As escolas costumam realizar reuniões com pais, mas num movimento de dentro para fora, onde é a escola quem diz o que considera importante para a família, havendo pouco espaço para a mesma expressar-se ou colocar-se efetivamente.
“Precisamos pensar na escola como um espaço democrático de diversidade e pluralidade, em que pelo diálogo entre as diferenças se possa construir um ambiente de produção coletiva de respeito à singularidade de cada um, de desenvolvimento da autonomia e, sobretudo, como espaço em que os sujeitos criem seus próprios significados, ao invés de obtê-los formatados e predeterminados por outrem.” (Dante e Tiné)
Na assessoria da Mais Diferenças à implementação de políticas de educação inclusiva, o trabalho com famílias tem sido fundamental na construção de espaços coletivos, de conquista e de defesa de direitos e de produção de afectos - termo utilizado aqui no sentido de afecção, de ser contaminado pelo outro, e não apenas como expressão de sentimentos, constitutivo dos modos de estar no mundo em relação a si e aos outros, e suas decorrências éticas.
Este trabalho tem eixos que se estruturam no fazer dos encontros, dos acontecimentos que ali se produzem, com base em uma relação ética. Ética, entendida aqui, como aponta Mèlich (2001, livre tradução), como uma ética da memória “uma ética que acolhe a palavra do outro, a palavra silenciada, porque a ética é ao mesmo tempo memória e acolhida...” (p. 30). “Uma ética que não pretende dar testemunho em lugar do outro, porque nunca se está no lugar do outro, senão de escutar ao outro, de deixar que o outro fale, inclusive desde o seu silêncio”. (p. 26).
Então, no relato “não se busca a objetividade, não se trata de ver como sucederam-se os fatos, senão como foram vividos.” (ibidem, p.30)
Nesta perspectiva, são chamadas à participação todas as famílias e não somente aquelas dos alunos com deficiência, ou seja, a proposta abrange a criação de espaços inclusivos, de modo à corresponsabilização coletiva, numa relação de aprendizagem com e nas diferenças.
“A escola tem que divulgar para as famílias as reuniões que estão ocorrendo sobre a inclusão. É muito importante que os pais de alunos que não são deficientes participem.” (depoimento de pai de aluno)
“O que vocês estão esperando de nós? Como nós que não temos filhos com deficiência podemos ajudar?” (fala de pai de aluno participante de grupo de trabalho).
Nos encontros, todos têm assegurado o direito à palavra, à escuta, ao silêncio, à troca, à aprendizagem, como mostram os relatos de pais/famílias a seguir:
“Acho que minha filha sempre poderia ter estudado em sala regular.”
“Quando minha filha estava na sala especial, que tinha poucos alunos, ela se recusava a ir para a escola. Com a inclusão, mesmo numa sala de 40 alunos, ela se sente importante, tem se desenvolvido muito, tem amigos e vai contente para a escola. Os próprios colegas a ajudam.”
“Meu filho ficou na sala especial e ele gostava muito da professora. Eu também gostava muito dela. Quando foi para a sala regular eu fiquei com muito medo que ele não se adaptasse. Ele estranhou um pouco a nova professora, e eu também, mas agora está super bem.”
“Meu filho não tem deficiência. Teve uma época que não ia bem na escola e a professora dizia que já tinha feito de tudo por ele, que ele não tinha jeito. Eu fiquei muito brava e mudei ele de escola. Com a nova professora ele está indo muito bem. Vocês têm que lutar para melhorar as coisas.”
O processo de inclusão, por tudo isso, permite que vivamos a experiência de sermos sujeitos que se aproximam dos outros, reconhecendo outras vivências, expectativas e esperanças, criando espaços e tempos para que todos possam sentir de outra maneira as situações da vida, desenvolvendo modos diversos de ver, buscando outros tipos de relação e o que há em cada um para fazer florescer a vida.
Referências bibliográficas:
BRASIL. Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial. Documento Subsidiário à Política de Inclusão. Brasília: MEC, 2005.
BRASIL. Conselho Nacional de Educação, Câmara de Educação Básica. Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica, Parecer n° 17/2001.
DANTE E TINÉ, SANDRA. Currículo, escola e comunidade. Um salto para o futuro, programa 3.
MÈLICH, JOAN-CARLES. La ausência del testimonio – Ética y pedagogia en los relatos del Holocausto. Barcelona: Anthropos Editorial; Guadalupe/México: Universidad Autônoma de Nuevo Leon, 2001.
A Mais Diferenças é uma OSCIP que tem como missão assessorar o poder público, a iniciativa privada, o terceiro setor e as comunidades na criação, articulação e implementação de políticas inclusivas, prioritariamente para as pessoas com deficiência, através da produção coletiva de saberes e práticas, valorizando as diferenças, para a transformação social.