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“Tinha que reforçar a parte pedagógica do professor. Porque o professor é um ser humano, também tem deficiências”, diz Dayane

Dayane Resende da Silva Souza, 22 anos, tem paralisia cerebral, o que limita suas habilidades motora e de fala; anda com dificuldade e, por isso, deve usar cadeira de rodas. Foi aluna da rede pública municipal paulista no ensino fundamental e concluiu o ensino médio na rede estadual. Nesta entrevista, Dayane fala das dificuldades encontradas para freqüentar a escola e aponta formas de sua superação.

 

Quantos anos você tinha quando foi pela primeira vez para a escola?
Sete anos.

E você foi para a pré-escola?
Fui para o pré. Mas teve muita briga. Primeiro porque eles não queriam me aceitar. E aí meus pais tiveram que agir.

Como a sua mãe conseguiu fazer sua matricular?
Foi na justiça. Não sei muito os detalhes. Mas foi uma luta.

Você era a única criança com deficiência na sua escola?
Era.

E como foi a sua trajetória na escola?
Na primeira série, eu empaquei. Depois eu empaquei de novo. Não estava preparada.

Mas o que acontecia?
Eu ficava para trás, como sempre. Aí, depois, eu passei para a segunda série, sem saber de novo. Passei para a terceira e empaquei de novo, três anos. Até sentei na fila dos burros.

Como assim?
Se você não conseguisse aprender, sentava nessa fila.

A escola era estadual ou municipal?
É municipal. Eu sentava na fila dos burros e foi indo. Normal. Mas eu tinha muita dificuldade de aprender e eles não sabiam lidar com isso. Foram acostumando e viraram uma família pra mim, os professores e os colegas.

Como era a sua relação com os colegas?
Teve preconceito, né? Mas depois foram acostumando, se adaptando.

Quando você chegou na quinta série, com aquele monte de professor, como foi?
Às vezes eu não conseguia acompanhar porque o professor falava muito rápido a matéria. Mas eles falavam: você faz isso de lição. Deixava o tempo correr pra mim. Dava a nota depois.

Tinha dificuldade em todas as matérias?
Não. Em matemática, era um desastre. Também física e química. Era terrível. Português, escrevo mal, mas para falar era a primeira para responder.

Os professores de matemática ou de química faziam algum tipo de adaptação?
Não. Era aula normal. Só tive um professor que fazia coisas para eu aprender. Os outros, não. Eram relaxados.

O que deveria ter sido diferente?
Tinha que reforçar a parte pedagógica do professor. Porque o professor é um ser humano, também tem deficiências.

Você achou que seus professores não buscaram outras maneiras de lidar com você?
Tem professor querendo, só que não faltam recursos.

Como era a aula de educação física?
Vixi... nunca fiz. Só ficava olhando.

Se você fosse professora de educação física, como você adaptaria a aula para um aluno que usa cadeira de rodas poder participar?
Eu ia perguntar para as entidades, fazer parcerias.

Como era na hora do recreio?
Às vezes o professor ia e ajudava, me olhava no escorregador e essas coisas. Eu brincava.

Conforme você foi crescendo, você acha que as coisas ficaram mais fáceis ou mais difíceis na escola?
Mais difíceis. Como eu falo, morreu a educação, tem que viver.

E no ensino médio, como foi?
Foi um pouco atribulado. Estudei os três anos sem repetir em uma escola estadual.

Você notou alguma diferença?
Era pior. Eram muitos grossos. Alguns professores, não todos. Têm muito preconceito. Uma vez perguntei para o professor de matemática: “como faz essa conta?”. Ele foi grosso. Mas se ele é professor ele tem que fazer tudo para a pessoa aprender, entender. Eu não sei quase nada de matemática.

Como foi com os colegas?
Eles eram gente fina. Me ajudavam.

Quando você estudava, quais eram os seus sonhos? Você pensava em continuar estudando? Ou não, queria acabar o ensino médio e começar a trabalhar?
Eu queria fazer faculdade. Queria estudar advocacia. Para poder exigir os meus direitos, ajudar as pessoas, os da periferia.

Você já trabalhou alguma vez?
Não.

Você pensa em trabalhar?
Penso... mas como? A sociedade é muito discriminatória. Eles não vêem que eu tenho uma deficiência, que tenho paralisia cerebral. Isso mexe muito com a aprendizagem, com a voz, com tudo. Não pode ser considerado um paraplégico, que só tem dificuldade motora. E o deficiente com paralisia cerebral é comprometido. Engloba tudo, entendeu?

Na sua escola tinha rampa, era adaptada?
Não, não tinha nada. Eu me virava, pedindo ajuda para os colegas. Quando faltava força e não tinha luz na sala de aula tinha que todo mundo sair feito vaga-lume.
Quando eu cheguei na outra escola, não tinha rampa, aí a diretora pediu uma rampa. Eles fizeram lá com concreto.

E você estudava no primeiro andar?
Não sou totalmente dependente da cadeira de rodas. Ando igual lagartixa, na parede. Eu me virava, subia, descia. Mas se tivesse elevador, era mais rápido.

Nesse tempo todo, nunca teve outro aluno com cadeira de rodas nas suas escolas? Você sempre foi a única?
Tinha dois que trabalhavam na secretaria, que usavam muletas. Eram funcionários. Mas era só eu de aluna. Tinha pessoas com deficiência de visão.

E tinha alguma adaptação para esse colega que tinha dificuldade de visão?
Não.

Você conhece outros jovens que usam cadeira de rodas, perto da sua casa? Onde eles estudam?
Ficam jogados.

E agora, o que você pretende fazer? O que você está fazendo em casa, por exemplo?
Nada. A realidade do nosso Brasil, né? Por isso que eu falo, continuo batendo nessa tecla: o governo não quer as pessoas informadas. Se elas forem realmente informadas, elas vão exigir seus direitos. E o governo não quer.

Para encerrar: qual foi uma lembrança boa da escola?
Os professores. Porque têm uns professores que são nada. E outros que são como uma família.

E qual uma lembrança ruim da escola?
As discriminações, os preconceitos. As piadas.

Por parte dos professores ou dos colegas?
Por parte dos professores e dos colegas também.

Tem alguma coisa que você acha importante falar?
Eles não deveriam avaliar pela nota do deficiente, mas pelas eficiências. Eu sou uma pessoa normal, mas tenho minhas limitações. Diz que tem escola para deficiente, mas quando ele quer entrar na universidade, ele é barrado por causa da nota.

 

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