A complexa relação entre educação, comunicação e cultura
Luiz Roberto Alves
Professor e pesquisador na Universidade Metodista e na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Ex-Secretário de Educação e Cultura das cidades de São Bernardo do Campo-SP (1989-1992) e Mauá-RJ (2001-2003).
Educação e Comunicação constituem-se dois saberes sociais mediados pelas Culturas. O cidadão, o ator social via de regra pensa esses saberes pela via do cultural, bastando para isso que ele aproxime o primeiro saber de sua vida cotidiana, de seus filhos, da sua gente; do mesmo modo quando se refira ao processo de comunicação como expressividade e análise da experiência, que começa pela sua. Na medida em que o cultural é a trincheira, é a casa-oikos da coesão e do olhar transversal pelo mundo, as leituras dos saberes tão caros à construção humana – o fato de formar-se e o produzir sentidos extensivos a outros e outras – são imanências da cultura.
Por que então desde o início da República mitigada do Brasil temos sistematicamente separado educação de cultura e por que hodiernamente se fala do cultural como cientificamente distinto do comunicacional, outro campo? Do ponto de vista político, nossa República foi campo de provas para a disputa hegemônica de grupelhos educados pela estranha combinação liberal-positivista. Eles fizeram boa análise das conjunturas e batalharam por idéias, mas jamais ouviram atores menos cultivados e socialmente não-aprovados, o que enviesou por muito tempo – até hoje – os processos que deveriam ter dialogado social e historicamente. Para essa gente, cultura foi sempre a performance de salão parisiense, comunicação mero instrumento e educação um prêmio. Já do ponto de vista mais acadêmico, incluídos intelectuais e gestores, um forte processo imitativo provocou contínuas invenções de métodos e experiências, geralmente aquelas trabalhadas por modas de prestígio. Nesse campo também disputou-se bastante entre o novo e o moderno, o prático e o teórico, a formação e a instrução, mas novamente não foram ouvidos os que lentamente se engajaram no processo educacional e comunicacional. Na medida em que houve o boom das estatísticas dos incluídos socialmente e do espírito de direção organizacional, via de regra autoritária, tanto rompeu-se com a qualidade quanto com os direitos à participação. O que se tem chamado de Política disto ou daquilo de fato é a lista de prescrições, a cartilha dos investimentos, o rol das boas práticas, sem memória e sem tomadas de decisão coletivas.
Cabe recordar que nessa onda, tanto na ditadura quanto na precária democracia, a Cultura foi travestida de verniz civilizatório, lugar do show, passarela do produto e do produtor, batalha do mecenato e das contas, o que aumentou o rompimento, pois perderam-se as referências para a transversalidade e mais nos atrasamos na compreensão do étnico, do gênero, do tecnológico, do etário. No entanto, quem supera esse espaço travestido e faz a crítica da literatura, do cinema e do teatro brasileiros na sua linha histórica encontra outra pauta, outra agenda de fato republicana. No interior de seus sentidos estão os atores a patrocinar a terra em transe, a fazer ver as cidades de deus e do diabo, a mostrar o acúmulo dos analfabetismos, a sinalizar o fogo-morto da produção capitalista. Na análise detida está um movimento de culturas e, como tal, todas as transversalidades faltantes às políticas públicas, negadas aos grupos sociais e esquecidas do novo modo de produção social internacionalizada, que faz olvidar as efetivas e gritantes transversalidades internas. Por isso cresce a dívida social.
Não é sem razão que toda a obra de Paulo Freire está obcecada pela redenção desse triângulo: educação-cultura-comunicação. Por isso não podemos fazer raciocínios simples a respeito dessa relação. Não são simples os raciocínios dos homens, mulheres e crianças que sentem na carne os distanciamentos, as rupturas, as contradições políticas em torno desses serviços e valores indispensáveis à cidadania. Quando a mulher de 60 anos diz ao mestre Paulo que quer aprender porque não deseja mais ser sombra dos outros está a construir um movimento complexo de pensamento, uma epistemologia da negação e do desejo, metáfora que parece ser platônica enquanto de fato quer detonar certas companhias ensombreadoras da vida.
Se eu penso na relação limitada desses saberes intrínsecos, corro o risco de negar a formação das gerações, tornar chocho o pensamento e construir o devir com pés-de-barro.