Destaque da conjuntura educacional
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Afinal, o que é Educomunicação?

Ismar de Oliveira Soares
Coordenador-geral do NCE/USP – Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo

O que temos afirmado, desde a conclusão de pesquisa desenvolvida na USP sobre a relação entre comunicação e educação, em 1999, é que algo extraordinário vem ocorrendo nesta interface. Um campo novo – a que denominamos de “educomunicação” – surgiu, não porque assim alguém decidiu, mas porque a prática social o tornou indispensável.

- Não faz sentido ! é o que diria um provecto orientador de teses, justificando: Em nosso programa não se estuda mídia e as tecnologias são meros instrumentos da pedagogia .

- Modismo ! Reagiria imediatamente um colega seu, de um programa de pós em comunicação, sem tentar nenhuma justificativa.

- Como assim ? perguntaria um assustado estudante de comunicação.

- Se é assim, eu também sou” ! afirmaria um gestor de projeto voltado ao uso da mídia em programas de desenvolvimento humano.

- Paulo Freire pode ser considerado educomunicador ? ousaria indagar um programador de TV comunitária, ouvindo, a título de comentário, de um companheiro que luta para introduzir o rádio em sua escola para que os alunos tenham com que se expressar: - Para mim, Betinho também foi. Ou não ?

Afinal, de que estamos falando?

Estamos nos referindo ao fato de que, ao longo dos últimos 40 anos, à margem de uma educação iluminista, centrada no currículo autorizado, e que não se preocupou em introduzir comunicação nos currículos de formação de seus estudantes, e de uma comunicação funcionalista, ora ostensiva ora sutilmente controlada pelos poderes político e econômico, e que olha para a educação na perspectiva de um mercado a ser atingido, agentes sociais decidiram produzir e utilizar formas alternativas para fazer chegar à pauta da mídia, do sistema educativo, do poder público e até mesmo das empresas, temas até então desconhecidos ou desconsiderados, traduzindo o desejo se de promover efetivamente – através de uma formação auto-gestionada - o exercício pleno da expressão comunicativa.

Em outras palavras, a relação entre a comunicação e a educação deixou de ser apenas a troca de ferramentas e de intencionalidades entre duas áreas, com a comunicação emprestando recursos para a educação (Tecnologias da Educação, TICs, etc) ou a educação garantindo audiência e mercado para a comunicação (Comunicação Educativa). O que se observou foi que – para muitos – a comunicação passou a ser um eixo condutor de práticas sociais intencionalmente educativas. Em outras palavras, a comunicação, de simples conjunto de instrumentos, transformou-se em processo da construção simbólica voltada à mobilização social, permitindo, em seu percurso, a ampliação da capacidade de expressão de todos os membros de um dado ecossistema comunicativo.

Nessa perspectiva, a pesquisa definiu como educomunicativo todo o conjunto de ações e reflexões inerentes ao desenvolvimento de “ecossistemas comunicativos” abertos e colaborativos, possíveis graças à gestão democrática dos recursos da informação, e que tenha como meta a prática da cidadania, presente no exercício da expressão comunicativa por parte de todos os agentes sociais envolvidos . Em decorrência, a educomunicação se materializa em “áreas de intervenção”, podendo o profissional ser um perito em uma ou mais destas áreas.

Nesse sentido, vamos encontrar o educomunicador em atividades de “educação para a comunicação” (como, por exemplo, o Educom.rádio , desenvolvido pelo NCE/USP junto a 455 escolas da prefeitura da São Paulo, ou junto a 70 escolas da Região Centro Oeste do Brasil); em atividades de formação de receptores críticos e ativos das mensagens midiáticas ( media education , na Europa; media literacy , nos Estados Unidos); em atividades de mediação tecnológica no espaço educativo (tecnologias da informação aplicadas à educação, information literacy , nos Estados Unidos); em atividades destinadas a ampliar a expressão comunicativa dos membros de uma comunidade através das artes; em atividades de gestão dos recursos e processos da comunicação nos espaços educativos e, finalmente, na pesquisa (reflexões epistemológicas sobre o novo campo). Ainda que haja especialidades, a tendência é o domínio de mais de uma área. A gestão de políticas e de práticas torna-se essencial na conjugação dos esforços em torno de programas que se pretenda sejam educomunicativos, levando-se em conta a necessidade de um planejamento ascendente adequado, de uma coordenação colegiada eficiente e de uma avaliação em processo pertinente aos objetivos pré-fixados.

A prática educomunicativa se faz presente em ONGs, em centros culturais, em programas de departamentos ou secretarias de cultura, meio ambiente e saúde, ou mesmo em empresas. Durante o ano de 2004, o próprio NCE/USP desenvolveu, para a Secretaria de Saúde da Prefeitura de São Paulo, um projeto de formação para “educomunicadores em saúde”. Em meados de junho de 2005 reúne-se, em Salvador, Bahia, a Rede Brasileira de Educomunicadores Ambientais .

Quanto à educação formal, esta tem sido a última das instâncias a aproximar-se da educomunicação, ainda com receios e repleta de temores. Projetos como os do NCE ( Educom.TV , para o Estado de São Paulo; Educom.rádio , para a Prefeitura da capital; Educomradio.centro-oeste , para a Região Centro Oeste e o projeto de educomunicação junto ao programa Consórcio da Juventude em Embu, Taboão, Itapecerica e São Lourenço da Serra, atingindo mais de 17 mil educadores e estudantes ao longo dos últimos 5 anos) têm representado uma experiência sólida cuja avaliação permitirá saber das dificuldades e dos ganhos da introdução do conceito no espaço das políticas públicas no âmbito da educação formal.

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