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Jornal, vídeo, rádio, fotografia, cinema. Os meios de comunicação presentes na educação

Não faltam projetos que misturam em suas práticas e conceitos a educação e a comunicação. Eles acontecem dentro ou fora da escola, possuem públicos-alvo diferentes e utilizam as mais variadas linguagens comunicativas. O Observatório da Educação selecionou algumas iniciativas de organizações não governamentais.

Clube do Jornal

Há dez anos jovens de escolas de ensino médio da rede pública do Ceará participam da elaboração de jornais estudantis com foco na promoção da cidadania e no protagonismo juvenil. Hoje, o Clube do Jornal está presente em 131 escolas de 32 municípios diferentes, atingindo cerca de 180 mil alunos. A principal característica do projeto é a liberdade dos participantes na definição de pautas, elaboração dos textos e divisão de tarefas.

“O Clube do Jornal é uma atividade extra-curricular, mas temos relatos bem interessantes de como esse material influencia as aulas e os temas debatidos em classe. É claro que há professores com mais abertura para isso e outros que, digamos assim, precisam ser conquistados”, explica Maria Neuma Alves Morais, da organização não governamental Comunicação e Cultura, responsável pela implementação do projeto.

Conflitos também ocorrem com a direção, já que freqüentemente os alunos escrevem, por exemplo, sobre problemas nas condições físicas da escola. “Às vezes o núcleo gestor não gosta porque acha que os jovens estão falando mal da escola. Neste momento, a gente entra para dialogar e dizer que esta realidade existe e que os alunos têm autonomia na definição dos temas”, diz Neuma. Autonomia e liberdade de expressão são conceitos reafirmados a todo momento na atuação de cada Clube do Jornal e a participação das escolas e dos alunos é determinada por um código de ética, inspirado no código de ética dos jornalistas.

Encontros regulares organizados pela coordenação do projeto garantem a troca de experiências entre os participantes de diferentes escolas e cidades. Além disto, desde de 2002, os jovens se organizam e são representados pela Redije - Rede de Integração dos Jornais Estudantis. Daniel Paulo Silva, aluno do 3 o ano do ensino médio da Escola Adalgiza Bonfim Soares, de Fortaleza, participa do projeto desde a 5 a série do ensino fundamental e já passou por três Clubes diferentes. Ele explica que a Rede funciona como ponto de apoio aos Clubes para solução de questões técnicas, garantia da qualidade editorial e intermediação em caso de conflito com a direção da escola. “O ponto que marcou a criação da Redije foi a atitude de uma diretora de uma escola em Iguatu. Ela tocou fogo no meio do pátio em toda a tiragem de uma edição do jornal, que havia saído com alguns erros ortográficos. Era época de eleição para a direção. Ela não queria que o jornal fosse distribuído porque achava que isso podia servir de motivo para falar mal da escola”, relata Daniel.

Segundo Neuma, atualmente cerca de 150 escolas esperam para entrar no Clube do Jornal. Os pedidos são encaminhados às coordenadorias regionais da Secretaria Estadual de Educação, que se encarrega de selecionar as escolas participantes. Visite: www.comcultura.org.br.

Cala-boca Já Morreu

“Porque nós também temos o que dizer”. O subtítulo do projeto Cala-Boca já morreu não podia ser mais direto ao reivindicar o direito de crianças e jovens expressarem suas opiniões e ter acesso aos meios de comunicação. “O projeto começou há dez anos em uma rádio comunitária no bairro do Jaguaré, com crianças fazendo programas de rádio para crianças. Algo inédito, porque até então só se via adultos fazendo isso. Além desta inquietação, percebemos a importância do rádio para a discussão de outras questões que dizem respeito à vida de todo mundo”, relata Ísis de Oliveira, uma de suas fundadoras.

Desde então, formou-se a metodologia de trabalho Cala-boca já morreu – baseada na atividade em grupo e na qual todas as etapas para concretização de um projeto são protagonizadas por crianças, adolescentes e jovens – e o projeto foi institucionalizado em uma organização não governamental. O grupo trabalha com a concepção de educomunicação e divulga sua metodologia de trabalho em oficinas para pessoas até 18 anos e em cursos periódicos para mediadores de oficinas de rádio e tv (leia nota no Caldeirão). O projeto não atua diretamente com oficinas e cursos nas escolas, mas a metodologia foi adotada, por exemplo, na implantação dos projetos Educom.rádio, nas escolas municipais de São Paulo, e Rádio-Vídeo Escola, da rede municipal de Sorocaba, cidade do interior paulista.

Sobre o ambiente escolar, Ísis questiona a separação desse espaço dos meios de comunicação. “Quando a comunicação chega nas escolas, estamos acostumados a ver, por exemplo, a rádio interna que toca músicas no intervalo. Mas a última coisa que a criança quer fazer no intervalo é parar para ouvir música e reportagens, mesmo que tenham sido feitas pelos colegas que ela conhece. Intervalo é o momento de brincar, fofocar. O importante é enxergar que a rádio serve para tantas outras coisas, que não pode estar a par das questões curriculares, pedagógicas”. Visite: www.cala-bocajamorreu.org.

Cinema e vídeo brasileiro

Ampliar o repertório cultural de educadores e alunos da rede pública a partir da interação com a produção audiovisual brasileira é um dos objetivos do projeto Cinema e Vídeo Brasileiro nas Escolas, desenvolvido desde 2001 pela Ação Educativa em parceria com o programa Crer para Ver (Fundação Abrinq e Natura Cosméticos), em escolas e órgãos administrativos da rede escolar da zona Leste da cidade de São Paulo.

O projeto propõe diferentes caminhos para a aproximação das comunidades escolares com a linguagem audiovisual: do acesso à diversidade da filmografia nacional por meio de videotecas escolares e mostras temáticas em vídeo, passando pela formação dos educadores para a análise dos recursos audiovisuais e sua incorporação no trabalho educativo, até o estímulo à expressão de professores e alunos por meio da produção local de vídeos.

Entre 2003 e 2004, como resultado dos cursos de produção em vídeo digital, foram finalizados quatro documentários e outros seis vídeos de um minuto sobre os 30 anos de história de uma das escolas participantes. Além de envolver professores e alunos na participação dos cursos, o projeto oferece às escolas equipamentos de filmagem, disponibiliza uma ilha de edição digital para a finalização dos vídeos e busca contribuir para a visibilidade destes trabalhos também fora da escola. Alguns, por exemplo, foram exibidos na 17 a e na 18 a Mostra do Audiovisual Paulista, um dos principais festivais de cinema da cidade.

Daiani Minutti leciona para alunos da 3 a série do ensino fundamental na escola municipal Antônio Carlos de Andrada e Silva, no bairro de São Miguel Paulista. Ela participa das atividades do projeto desde 2001 e, no momento, finaliza a edição do vídeo Transeuntes que produziu junto com outros professores e alunos. Ao contrário de outros trabalhos, este vídeo não aborda questões relacionadas à escola. “E um vídeo experimental que fala das relações fragmentadas que acontecem no metrô”, diz.

“Hoje não consigo mais me ver dando aula sem utilizar o vídeo, o cinema”, diz Daiani, que utiliza esse recurso pelo menos uma vez por semana. “Como trabalho com crianças, tenho um interesse especial pelo cinema infantil. Além da leitura do conteúdo e da técnicas dos desenhos e animações, tento fazer o processo de produção [da linguagem da animação] com meus alunos. É claro que a gente usa uma linguagem mais simples, com palavras que eles entendam. Mas dá para fazer isso tranqüilamente”. Em 2004, ela e a professora Inês Silva dos Santos coordenaram a produção de um vídeo sobre contos populares cujos personagens foram os próprios alunos, que também elaboraram o roteiro e pensaram a produção. O projeto foi desenvolvido de modo integrado ao currículo, durante as aulas de leitura. Daiani destaca que “esta vivência enriqueceu muito a leitura e interpretação dos vídeos feita em sala de aula”.

A maioria dos vídeos e filmes que ela utiliza em suas aulas são emprestados da videoteca da escola, outra vertente importante da implantação do projeto no ambiente escolar. Professores, alunos e também membros da comunidade têm à disposição um acervo com cerca de 600 títulos. São produções que contam a trajetória do cinema brasileiro desde a década de 20 até o momento, vídeos e filmes de diversas regiões do País e em formatos variados, como animação, curta-metragem e documentário.

Vale lembrar que o projeto Cinema e Vídeo Brasileiro nas Escolas foi elaborado a partir da experiência do projeto Integrar pela Educação, que tinha como objetivo gerar novos sentidos para a educação na zona Leste combinando práticas escolares e não escolares. Aconteceu entre setembro de 1999 e novembro de 2002 e reunia, além da Ação Educativa, entidades, movimentos e escolas da região, que concentra um terço da população paulistana e sofre com a falta de equipamentos públicos culturais. É por isso que reforçar o papel das escolas públicas como pólos de difusão e produção cultural dos bairros ganha ainda mais importância.

Oficina de Imagens

Já em Belo Horizonte, um projeto mais pontual também preocupou-se em levar até a escola métodos educacionais que incorporam linguagens e novas tecnologias da informação na formação de professores e alunos e que poderiam contribuir para a melhoria da educação.

“A proposta é inserir alunos e professores como protagonistas na produção e veiculação de informação e conhecimento”, explica Leonardo Brant, da organização não governamental Oficina de Imagens, responsável pelo desenvolvimento do projeto e integrante da Rede Andi. Para isso, realiza-se um percurso que vai das câmaras fotográficas escuras à imagem digital e utiliza-se a internet com o objetivo de discutir o papel da mídia e das tecnologias da informação na formação do cidadão hoje. Segundo ele, ao aliar uma técnica artesanal de produção de imagem à tecnologia da internet, o projeto conduz à reflexão do que uma lata de alumínio tem a ver com um computador e de como os meios de comunicação se relacionam com a vida de cada pessoa.

O projeto Latanet, realizado entre 2002 e 2004 em duas escolas municipais e, em sua fase piloto, recebeu o apoio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – Unesco. A parceria com a Secretaria Municipal de Educação teve continuidade em 2003 e os encontros priorizaram a formação de educadores, com a participação de 45 professores, 15 técnicos e 11 monitores.


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