São Paulo enfrenta desafio de dar continuidade a projeto de educomunicação nas esoclas
Na cidade de São Paulo, uma experiência de educomunicação, o projeto Educom.rádio, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Educação, atingiu 455 escolas de ensino fundamental entre setembro de 2001 e dezembro de 2004. Coordenada pelo Núcleo de Comunicação e Educação da ECA-USP, a experiência consistiu em sete etapas, seguidas da formação de 11.375 membros da comunidade escolar, com oficinas sobre educomunicação, sobre produção radiofônica e exercícios práticos de produção.
Vale destacar que os processos de formação envolveram professores, alunos e coordenadores das escolas municipais, que discutiram juntos como implementar trabalhos curriculares e extracurriculares de produção radiofônica e multimidiática e aplicar os conceitos educomunicacionais nos planos pedagógicos da escola.
Com a mudança na administração municipal no início do ano, ficou a dúvida se seria dada continuidade ao projeto, pois muitas escolas não participaram, outras não receberam os equipamentos e aqueles já instalados precisam de manutenção constante. Essas incertezas foram de certo modo aliviadas com a aprovação, em 28 de dezembro de 2004, da lei 13.941, que tramitava há dois anos na Câmara Municipal e que instituiu como política pública municipal o programa de educomunicação. De acordo com a nova lei, cabe ao poder municipal criar programas para “desenvolver e articular práticas de educomunicação, incluindo a radiodifusão restrita, a radiodifusão comunitária, bem como toda forma de veiculação midiática, de acordo com a legislação vigente, no âmbito da administração municipal”, além de “incentivar atividades de rádio e televisão comunitária em equipamentos públicos”. O governo municipal deve, ainda, “capacitar, em atividades de educomunicação, os dirigentes e coordenadores de escolas e equipamentos de cultura do Município”.
O atual secretário municipal de educação, José Aristodemo Pinotti, também já expressou publicamente sua intenção de dar continuidade ao Educom.rádio nas escolas, melhorar os equipamentos existentes e ampliar o alcance das rádios para que elas passem a atingir também a comunidade próxima à escola, uma vez que atualmente elas funcionam com sistemas de som ambiente no espaço escolar. A esse respeito, ouça a entrevista que os alunos da rádio da Escola Municipal de Ensino Fundamental Abrão de Moraes realizaram com o secretário no endereço www.emefabraodemoraes.com.br/abrao/mp3server/
A realidade de duas escolas
Cerca de cinqüenta rádios continuam em funcionamento nas escolas, e o número só não é maior, segundo o NCE, porque a prefeitura não comprou todos os equipamentos previstos e alguns estão quebrados. O fato é que onde a rádio funciona, o ambiente escolar se transforma. André Firmino Carneiro, aluno da 7 a série da Escola Municipal de Ensino Fundamental Brasil-Japão, localizada no Rio Pequeno, zona Oeste da cidade, diz que “antes da rádio existir era tudo muito monótono”. E acrescenta: “hoje, com as músicas que tocamos na rádio, todo mundo dança, canta e conversa mais. As pessoas trazem seus CDs, querem participar”. Além das músicas, Murilo Nascimento Lima da Silva, aluno da 8 a série, explica que a rádio transmite recados dos alunos, reportagens e entrevistas. Ao mesmo tempo, ele e os colegas do grêmio estudantil que hoje estão è frente das atividades da rádio – os alunos que passaram pela formação inicial para a instalação da rádio na escola já concluíram o ensino fundamental – dizem que falta acompanhamento. “Até agora ninguém veio aqui para saber como está funcionando. Alguns equipamentos não funcionam direito e não temos como consertar”, reclama.
Na EMEF Abrão de Moraes, no bairro da Penha, zona Leste, a rádio funciona de maneira mais integrada às atividades pedagógicas, procurando seguir as orientações do processo de formação para a aplicação dos conceitos de educomunicação. A professora de informática educativa Adriana Leila Trentin – definida como o “coração da rádio” pelo aluno da 7 a série Vinicíus Ribeiro – explica que os programas discutem temas das disciplinas e são costurados com o que os professores fazem na sala de aula. “Eu vi uma transformação nessas crianças, elas não faltam mais e se integraram de fato à escola”, diz emocionada. Para ela, comunicação e educação estão tão ligadas que são quase uma coisa só: “os professores formam educomunicadores a todo tempo, pois desenvolvemos a oralidade dos alunos, formamos novos leitores”.
A Abrão de Moraes foi pioneira no desenvolvimento de uma web-rádio , que disponibiliza a produção dos alunos na Internet. Mais uma vez, o empenho da professora Adriana foi determinante. A Companhia de Processamento de Dados da prefeitura, Prodam, se dispôs a colaborar, mas não solucionou a dificuldade técnica existente para colocar a web-rádio no ar. Por esse motivo, a conexão do equipamento da rádio foi transferida para o servidor de sua casa. No endereço www.emefabraodemoraes.com.br é possível ouvir a programação desenvolvida por uma turma de 1ª a 4ª série e outra de alunos de 5ª a 8ª série, como entrevistas e reportagens especiais sobre o Dia da Consciência Negra, o Dia Internacional da Mulher e a comemoração dos 123 anos do escritor Monteiro Lobato.
Para conhecer produções de alunos de outras 99 escolas participantes do Educom.radio, visite: www.educomradio.com.br.