Fazendo
acontecer a Lei 10.639/2003
Promulgada pelo Presidente da República em 9 de fevereiro de 2003, a
lei 10.639/03, de autoria da deputada Esther Grossi (PT/RS),
altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 (LDB)
e inclui no currículo oficial dos estabelecimentos de ensino básico
das redes pública e privada a obrigatoriedade do estudo da temática
História e Cultura Afro-brasileira. O maior desafio a ser enfrentado após
um ano de sua aprovação ainda é o de colocar essa inclusão em prática
de maneira eficaz e adequada nas situações cotidianas da vida escolar
de todo o território nacional.
De acordo com a lei, o conteúdo
programático das diversas disciplinas deve abordar o estudo de História
da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra
brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a
contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política
pertinentes à História do Brasil. Os conteúdos referentes à História
e Cultura Afro-brasileira devem ser ministrados no âmbito de todo o
currículo escolar e principalmente nas áreas de Educação Artística,
Literatura e História Brasileira.
Essa medida é regulamentada pelo Parecer
(confira na seção Faísca) homologado em 19 de maio de 2004,
que estabelece as diretrizes curriculares nacionais para a educação
das relações étnico-raciais e traz orientações de como a lei deve
ser implementada. Ela também faz parte do rol de ações afirmativas
que devem ser implementadas pelo Governo Federal, como signatário de
compromissos internacionais no combate ao racismo, e atende a uma
demanda gerada pelo desconhecimento quase total, por parte de grande
parcela dos brasileiros, das questões relativas às sociedades
africanas e mais especificamente sobre as marcantes influências do povo
africano na formação da sociedade brasileira.
O Brasil é o segundo país de maior
população negra do mundo, sendo o primeiro a Nigéria. O
Censo do IBGE de 2002 constata que 45% da população do País é
negra. "No entanto, muito de nossa história ainda está por ser
conhecida, reconhecida e divulgada, para que a sociedade brasileira
assuma a participação do elemento africano em todas as áreas de
desenvolvimento e tecnologias, possibilitando um referencial de
identidade cultural e histórico para negras e negros brasileiros",
garante Henrique Cunha Jr, professor de mestrado e doutorado em Educação
da Universidade Federal do Ceará.
Mesmo com a diversidade cultural da
sociedade brasileira, principalmente quando consideramos também a
população indígena e os imigrantes asiáticos, até hoje o Sistema
Educacional do País tem toda a sua estrutura fundamentada na história
européia, com sua versão e visão de mundo, e portanto não contempla
a pluralidade étnica e as características regionais que fazem parte da
realidade brasileira.
Principais
enfrentamentos na aplicação da lei
Andréia Lisboa de Souza, coordenadora de políticas educacionais da
Diretoria da Diversidade da Secretaria de Educação Continuada,
Alfabetização e Diversidade - Secad, afirma que a principal
dificuldade enfrentada no âmbito governamental é a recusa de alguns
estados e municípios em colaborar com a realização de fóruns
estaduais para a aplicação da lei. "É um programa de vinte Fóruns
sobre Educação e Diversidade Étnico-racial, para debater estratégias
de combate à discriminação e a implementação da lei 10.639. O
primeiro foi no Amapá; temos resultados também em Alagoas e Sergipe.
Precisamos do apoio das entidades do Movimento Negro e de toda a
sociedade civil para pressionar seus estados e municípios para que
cumpram o programa e realizem os fóruns estaduais para contemplar o
planejamento de formulação dos currículos, formação dos
professores, organização de materiais didáticos e sensibilização de
gestores públicos no cumprimento da lei".
Um ponto importante levantado por
pessoas e instituições do Movimento Negro que atuam no campo da Educação
é a sensibilização de alguns profissionais da área que ainda não
entenderam a importância desse processo e a sua necessidade. Rachel
Oliveira, doutora em Educação e Relações Raciais, fala sobre a
banalização, na abordagem do tema, por alguns professores e diretores
de escola: "Muitos professores de escola pública estão
questionando a existência da lei e afirmam que na sua escola não
existe esse tipo de problema (práticas de racismo e preconceito) e em
seguida falam que o tema sempre é abordado nas festas e datas
comemorativas. Já nas escolas particulares a rejeição é justificada
pela ausência de alunos negros nas instituições".
O educador Sebastião Salgado, que dá
aulas de História em uma escola pública da Zona Norte da capital
paulistana, aborda a temática em sua disciplina durante o ano inteiro e
tem seu trabalho reconhecido pelos alunos e pela sociedade. "É um
processo árduo e que enfrenta muita rejeição. Para que se tenha uma
idéia: uma vez a diretora da escola onde eu trabalho encontrou uma
amiga na rua que é diretora de outra escola e foi questionada sobre
deixar que eu desenvolvesse ‘esse tipo de atividade’; ela completou
falando ‘você é louca? Não pode fazer isso... Esses negros passaram
pela escravidão, vivem na miséria até hoje e ainda estão aí; se
começarem a ter espaço, daqui a pouco estão mandando no nosso país’.
E é esse tipo de gente e pensamento que enfrentamos no dia-a-dia".
No âmbito jurídico, Humberto Adami,
do Instituto de Advocacia Racial e Ambiental do Rio de Janeiro, diz que
a principal medida para que a lei seja realmente cumprida é o
monitoramento da sociedade e principalmente do Movimento Negro.
"Devemos entrar com uma representação junto ao Ministério Público
em todos os municípios onde a lei não esteja em cumprimento e fazer
que a escola vá explicar porque ainda não cumpriu o que está
determinado. Assim, o Ministério Público, que é órgão fiscalizador
e representante da sociedade, vai investigar e fazer que seja
encaminhada uma punição pelo descumprimento da lei".
De onde veio a lei?
A promulgação da lei 10.639 foi precedida por leis municipais em Belém,
Aracaju e São Paulo, e todas elas são resultado de um longo processo
de ativismo do Movimento Negro. Especialista em História da Educação
Negra e membro do Conselho Nacional Contra a Discriminação, Jeruse Romão
aponta para a ausência desses dados: "Guiomar Matos, em texto de
1954, já discutia o preconceito nos livros infantis. Desde a década de
70 o Movimento Negro luta para incluir a história do negro no currículo
escolar; é preciso relatar os antecedentes do Centro de Estudos
Afro-asiáticos - Ceao na Universidade Federal da Bahia, além de
trabalhos no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo, entre
outros, para podermos aprimorar o que temos hoje".
Essas primeiras iniciativas foram
impulsionadas principalmente com a constatação, por parte dos
Movimentos Negro e Indígena, de que os Parâmetros Curriculares
Nacionais – PCNs – abordam a temática racial/étnica na pluralidade
cultural em forma de orientação genérica, sem maiores conseqüências
na produção das políticas educacionais, nos diferentes níveis de
governo. Segundo os segmentos negro e indígena, esse tipo de orientação
abre margem para a falta de compromisso no tratamento do tema ou a
abordagem equivocada que reforça estereótipos e folclorizações.
Na experiência de Santa Catarina,
Jeruse Romão conta que foi necessária coragem política para fazer a
intervenção no Estado com a menor população negra do País. "A
importância da participação do primeiro vereador negro eleito no
município, que foi Márcio de Souza, tornou-se fundamental para aprovar
a lei que obrigava o conteúdo afro nos currículos. Antes, o tema era
visto só nos festejos de datas históricas. Na época, os militantes
que organizavam os espaços de debates e pressão política dormiam em
casa de companheiros e escolas públicas".
"O auge do debate foi analisar a
evasão escolar com recorte racial. Enquanto os educadores diziam que o
problema era só por déficit financeiro, o Movimento Negro já
alertava para a questão do racismo que estava embutido no discurso do
livro didático e não era tratado na formação do educador, além da
falta de um conteúdo que valorizasse a identidade da criança negra no
currículo escolar. Com esse discurso,
fomos para a rede municipal e ganhamos o debate na conjuntura de um
governo que pautava a discussão na diferença de classe. Para
completar, a Secretaria de Educação achava ideal trabalhar apenas com
os alunos e nós defendíamos orientar também os professores; por isso
foi elaborado um caderno específico sobre o tema para ser utilizado
pelo professor da rede pública", completa Jeruse.
Em 1996, a prefeitura de Belo
Horizonte fez parceria com o Centro de Estudos das Relações de
Trabalho e Desigualdade - Ceert e desenvolveu o programa Oportunidades
Iguais para Todos, formando trinta agentes multiplicadores na introdução
do tema Pluralidade Cultural na rede pública de Educação, que
repassaram essa formação para setecentos educadores municipais ao
longo de um ano. Os grupos realizaram pesquisas em livros didáticos e
entrevistas com professores, que subsidiaram a elaboração de um
programa auxiliar na preparação do profissional.
Segundo Rachel Oliveira, todas as
iniciativas isoladas ou fruto de parcerias entre entidades do Movimento
Negro e raras participações do Poder Público foram essenciais para
provar que é possível promover a educação inclusiva. "É possível
abrir espaço para práticas pedagógicas que mostrem o mundo além do
imaginário europeu. Corrigir equívocos históricos, que reforçam
preconceitos no sistema educacional pela generalizada falta de informação
sobre a questão racial e sobre o que é discriminação. Corrigir os
erros que produzem baixas na auto-estima da criança negra, reforçada
por atividades educacionais como a utilização de músicas e ditados
pejorativos considerados "folclóricos" e, principalmente,
desconstruir o mito da democracia racial brasileira, que trouxe muitos
prejuízos para a população não branca do País", conclui a
especialista em Educação e Relações Raciais.